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Risco ClimáticoAlerta de risco

El Niño 2026-27: 81% de chance de ser muito forte e o que isso significa para a economia brasileira

Mateus Lima
Mateus Lima

CEO

7 min de leitura
El Niño 2026-27: 81% de chance de ser muito forte e o que isso significa para a economia brasileira

Em 9 de julho, a NOAA atualizou a projeção do El Niño 2026-27 para 81% de chance de atingir a categoria muito forte entre outubro e dezembro. Em junho, era 63%. O salto foi de quase 20 pontos percentuais em um mês.

O Painel El Niño 2026-27, produzido pelo INPE, INMET, CEMADEN, ANA, SGB e Defesa Civil, confirmou o fenômeno e projetou mais de 90% de chance de persistência até início de 2027, com alta probabilidade de intensidade muito forte na primavera e no verão (Cemaden/MCTI, 30/jun, atualizado 8/jul/2026). São seis instituições brasileiras independentes alinhadas no diagnóstico.

A temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 (Pacífico equatorial central) saltou de +0,4°C em maio para +1,2°C em julho. Na costa da América do Sul (Niño 1+2), a anomalia alcança +2,7°C. Oceano e atmosfera seguem acoplados, reforçando o sistema (CPC/NOAA, 8-9/jul/2026).

O El Niño de 2026 pode estar entre os mais intensos desde 1950, junto com 1982-83, 1997-98 e 2015-16.

O que esperar por região

O Brasil tem impactos regionais distintos com El Niño, que respeitam padrões previsíveis.

Sul: Chuvas muito acima da média no terceiro trimestre, com riscos de temporais, enchentes e deslizamentos. Solo encharcado dificulta a colheita e reduz a qualidade de trigo e aveia. Atraso em obras, possibilidade alta de inundação no vale do Itajaí, mais fechamento de portos e atraso na cadeia logística.

Norte: Seca, calor extremo e queimadas. Rios baixos comprometem a navegação no Arco Norte. Por esses rios transitam 36,2% das exportações nacionais de soja e milho. O Painel aponta precipitações abaixo da média no centro-norte. Para i4sea, já está claro que os impactos em 2026 serão comparados ao ano de 2023. 

Nordeste: Estiagem impacta a agricultura de sequeiro e a pecuária. O Painel prevê queda significativa nas chuvas, principalmente no semiárido. Calor extremo e noites tropicais impactam significativamente a saúde e bem-estar da população.

Centro-Oeste: Atraso nas chuvas reduz a janela de plantio. A safrinha de milho, que representa 75% da produção nacional, corre risco. Temperaturas elevadas e veranicos aumentam estresse hídrico nas pastagens e na safra seguinte.

Sudeste: Chuvas irregulares, calor acima da média e pressão sobre os reservatórios do Sistema Interligado Nacional. Ondas de calor elevam a demanda por energia e aceleram a adoção de bandeiras tarifárias mais caras.

Quatro setores na mira

Agropecuária: A safra 2025/26 foi estimada em 358,6 milhões de toneladas pela Conab, após crescimento de 11,7% em 2025. O risco é de quebras regionais assimétricas, afetando culturas e áreas de forma distinta. O economista Felippe Serigati, da FGV Agro, destaca que quebras de safra reverberam até o ano seguinte.

O seguro rural, que deveria amenizar perdas, encolhe: apólices caíram de 82 mil (2021) para 26 mil (2025). O governo bloqueou R$ 461,7 milhões do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural e cancelou R$ 56,3 milhões já empenhados (Poder360, 10/jun/2026).

Energia elétrica: A TI Safe estima R$ 35 bilhões em perdas potenciais para os 25 maiores grupos do setor elétrico brasileiro com El Niño moderado a forte. Hidrelétricas no Sudeste, Centro-Oeste e Norte enfrentam risco combinado de calor extremo e vazões irregulares. A bandeira amarela soma R$ 18,85/MWh; a vermelha, R$ 44,63/MWh.

Logística e portos: O Arco Norte responde por mais de um terço das exportações de grãos e depende de hidrovias sensíveis ao nível dos rios. Com o Tapajós 0,9 metro abaixo do normal, a navegabilidade cai. Isso eleva custos e congestiona acessos portuários se o transporte rodoviário precisar assumir o volume. No Sul, chuvas excessivas ameaçam estradas e terminais, com destaque para os problemas que os portos de Itajaí e Navegantes podem enfrentar.

Macroeconomia e inflação: O Banco Central projeta efeito de 0,3 ponto percentual no IPCA em 2026 e 0,4 ponto em 2027 por causa do El Niño. A G5 Partners prevê alta de até 8% nos preços dos alimentos até o fim do ano. Alimentos e energia mais caros pressionam a política monetária.

O que o ECMWF mudou (e por que isso importa)

Desde 1º de junho, o Centro Europeu (ECMWF) adotou um índice relativo para medir o aquecimento do El Niño. Em vez de considerar só a temperatura absoluta do Niño 3.4, compara o aquecimento dessa região com o restante dos trópicos. Isso reduziu as previsões do ECMWF em cerca de 0,5°C em relação às medições tradicionais. A régua ficou mais precisa. Todos os modelos americanos, europeus e australianos indicam evento forte a muito forte entre primavera de 2026 e verão de 2027.

Onde o dado vira decisão

A primeira Nota Técnica Conjunta saiu em abril de 2026, sete meses antes do pico esperado. O Painel El Niño do governo, lançado em junho, já publicou a segunda edição em julho. O alerta está disponível desde o outono.

Quem monitora ativos críticos (portos, usinas, minas, ferrovias, linhas de transmissão) tem dados com prazo e resolução definidos. O custo de não usar é alto. A diferença entre um El Niño que vira notícia e um que vira variável de gestão mora no que se faz nos próximos 90 a 120 dias.

Antecipar com semanas custa menos que reagir com horas. O dado existe. Falta transformá-lo em planejamento.

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