Resiliência da rede elétrica a eventos extremos: por que reforçar tudo não é a resposta
Numa subestação em Assis, interior de São Paulo, o CEO da Taesa fez uma pergunta que parece simples.
Rinaldo Pecchio olhou para uma torre de transmissão e disse: você pode construir uma para suportar 120 km/h de vento. Ou pode construir uma para 400 km/h. A segunda vai ser muito mais pesada, vai precisar de uma fundação muito maior e o custo vai subir bastante.
"A sociedade precisa decidir quanto quer pagar para ter uma infraestrutura superdimensionada", disse ele, em 3 de setembro de 2026.
Essa frase não é sobre engenharia. É sobre dinheiro e sobre risco. E resume o dilema que o setor elétrico brasileiro está enfrentando agora, sem mais poder adiar.
Não dá para blindar toda a rede contra qualquer vento. Também não dá para não fazer nada.
A pergunta que sobra, a única que importa de verdade, é: onde vale reforçar e onde vale responder rápido? E essa resposta só existe se alguém souber, antes do evento, qual trecho da rede está exposto.
O que 2026 já mostrou, em número e em torre no chão
Na madrugada de 24 de julho, um temporal no interior de São Paulo trouxe rajadas de até 160 km/h, com medições de 121 km/h.
O resultado: 54 torres de transmissão derrubadas e mais de 250 postes da CPFL Paulista danificados.
O ONS registrou desligamentos automáticos entre 4h20 e 4h46 daquela madrugada. Três linhas de alta tensão saíram do ar quase ao mesmo tempo: a de 440 kV entre Água Vermelha e Araraquara (ISA Energia, 5 torres), a de 500 kV entre Marimbondo II e Araraquara (Axia Minas, 5 torres) e a de 500 kV entre Nova Ponte 3 e Araraquara 2, com 16 torres comprometidas, 8 por circuito.
Duas semanas depois, foi a vez do Rio Grande do Sul.
Um ciclone derrubou torres de transmissão na região da Lagoa Mirim. Duas ficaram submersas, deixando Santa Vitória do Palmar e Chuí sem energia.
No total, 24 torres tiveram danos. Uma força-tarefa da CEEE Equatorial com a Axia mobilizou mais de 90 profissionais e um helicóptero.
Cerca de 67 mil consumidores ficaram sem energia em 9 de agosto. Geradores foram acionados para manter serviços essenciais funcionando.
Dois estados, duas tecnologias climáticas diferentes (vendaval convectivo em um caso, ciclone extratropical no outro), o mesmo desfecho: torre no chão, energia cortada, equipe correndo atrás do prejuízo.
O que o ONS está dizendo, sem rodeio
Não é só a Taesa que está com essa conta na mesa. O próprio operador do sistema elétrico brasileiro está falando disso, em público, sem meias palavras.
Valter Cardeal, diretor de operações do ONS, disse ao Valor que o país precisa reforçar redes para enfrentar clima extremo. Ele citou "frequência cada vez maior de tornados e ciclones extratropicais" e classificou o momento como "um cenário que não se verificava antes".
Solange Ribeiro, presidente do conselho de administração do ONS, foi na mesma direção uma semana antes: "um dos maiores desafios impostos a empresas de transmissão e distribuição é a capacidade de se antecipar a novos eventos extremos" .
Antecipar. Não reagir mais rápido depois.
É aqui que a conversa muda de lugar. Sai da sala de engenharia estrutural e entra na sala de gestão de risco.
Por que "reforçar tudo" não é resposta, e "não fazer nada" também não é
A Taesa opera 16.600 km de linhas em 19 estados brasileiros. Reforçar cada quilômetro para suportar o pior vento hipoteticamente possível é, na prática, inviável.
Pecchio foi direto: "praticamente não existe condição de reforçar todas as linhas do Brasil para qualquer evento extremo".
A fundação fica maior, a torre fica mais pesada, o custo sobe, e o prazo de execução também. Multiplique isso pela extensão da rede brasileira e o número vira inviabilidade financeira, não conservadorismo técnico.
Mas o oposto também tem custo. Não fazer nada significa recompor rede depois do evento, sob pressão, com equipe deslocada às pressas, consumidor sem energia, indústria parada, multa regulatória, imagem arranhada.
O evento de julho em São Paulo e o do Rio Grande do Sul em agosto mostram os dois lados dessa equação: quando o vento chega em trecho não preparado, o custo aparece de qualquer jeito. Só que aparece depois, maior, e sem planejamento.
A estratégia que a Taesa descreve não é nem uma coisa nem outra.
É uma combinação: manutenção preventiva, monitoramento meteorológico, planos de contingência e torres de emergência para religamento rápido.
A empresa investiu cerca de R$ 15 milhões nos últimos dois anos nessa frente de manutenção e resiliência.
Não é blindagem total. É preparo direcionado.
A decisão que sobra: probabilidade do perigo de vendaval cruzada com criticidade do ativo
Se reforçar tudo é inviável e não fazer nada é caro, a decisão real é outra: qual trecho da rede reforçar primeiro e qual trecho tratar com resposta rápida em vez de resistência estrutural?
Essa decisão tem três variáveis.
A primeira é análise multifatorial: com dados de 10 anos de reanálise própria, a i4sea cruza as condições ambientais com as redes para identificar o impressão digital do que causa os impactos.
A segunda é probabilidade: qual a chance real das condições identificadas atingirem, não o Brasil, não o estado inteiro, mas naquele vão entre duas torres.
A terceira é criticidade: o que aquele trecho alimenta. Uma linha redundante, com rota alternativa, não é a mesma coisa que a linha única que sustenta um polo industrial ou uma capital.
Cruzando as duas variáveis, a prioridade de investimento aparece sozinha. Trecho de alta probabilidade de evento extremo e alta criticidade: reforço estrutural, chega antes.
Trecho de alta probabilidade mas baixa criticidade, com redundância disponível: resposta rápida, torre de emergência, equipe de plantão.
Trecho de baixa probabilidade: monitoramento, sem gasto pesado agora.
O problema é que essa conta só funciona se a segunda variável, a probabilidade local, for confiável.
Previsão pública de tempo, hoje, tem resolução de cerca de 25 km. Isso é suficiente para dizer que vai ventar forte "na região de Araraquara". Não é suficiente para dizer qual das cinco torres entre duas subestações está no caminho da rajada.
O problema não é falta de dado meteorológico. É não ter acesso aos dados na escala do ativo e com inteligência climática aplicada.
O que muda quando o alerta vem por ativo, não por cidade
Aqui entra o método, não o produto.
Inteligência climática, no sentido que faz diferença operacional, significa transformar previsão de tempo (que fala de região) em risco por ativo (que fala de torre, linha, subestação).
A i4sea trabalha com resolução de 1 a 3 km, contra os cerca de 25 km da previsão pública, cruzando mais de dez anos de reanálise proprietária com o monitoramento de 18 perigos climáticos, hoje presente em mais de 100 ativos críticos na América Latina e na Europa.
A diferença prática é esta: em vez de saber que "vai ventar forte na região", o operador sabe que a torre 12 da linha que alimenta o polo industrial tem probabilidade elevada de impacto nas próximas 48 horas, enquanto a torre 40, numa linha redundante, pode esperar.
Isso não evita o vento. Evita que o vento pegue todo mundo de surpresa ao mesmo tempo, na mesma linha, sem plano.
Onde a maioria vê imprevisto, dá para ver variável de gestão. A diferença entre as duas leituras é o dado que chega antes do evento, não depois dele.
Clima extremo virou variável de projeto, não só de operação
O que aconteceu em São Paulo em julho e no Rio Grande do Sul em agosto de 2026 não foi acaso isolado. Foi o mesmo padrão se repetindo em geografia e tecnologia climática diferentes: rede pega de surpresa, torre no chão, resposta emergencial.
O ONS já está dizendo isso publicamente, através de dois porta-vozes diferentes, em semanas diferentes. Não é alarme, é diagnóstico.
A pergunta de Pecchio (120 km/h ou 400 km/h) parece uma escolha de engenharia. Não é. É uma escolha de portfólio de risco: quanto investir em resistência estrutural, quanto investir em capacidade de resposta e como decidir isso trecho a trecho em vez de rede inteira.
Quem decide essa alocação com dado de probabilidade local antecipa o problema. Quem decide sem esse dado descobre o problema quando a torre já caiu.
A diferença de custo entre as duas posturas não está na filosofia. Está na conta de recomposição, na multa, no consumidor sem energia, na indústria parada.
Se você trabalha com planejamento de transmissão, distribuição, geração ou operação de rede, essa é a hora de entender onde a sua rede está exposta antes que o vento decida por você.
Fontes
Poder360, 03/09/2026, "Taesa: Brasil terá de decidir quanto gastar contra eventos extremos", https://www.poder360.com.br/poder-infra/taesa-brasil-tera-de-decidir-quanto-gastar-contra-eventos-extremos/
Megawhat/UOL, 27/07/2026, "Ventos de até 160 km/h derrubam 54 torres de transmissão em São Paulo", https://megawhat.uol.com.br/distribuicao/ventos-de-ate-160-km-h-derrubam-54-torres-de-transmissao-em-sao-paulo/
Canal Solar, 10/08/2026, "Ciclone: torres de transmissão no Rio Grande do Sul", https://canalsolar.com.br/ciclone-torres-de-transmissao-rio-grande-do-sul/
G1 RS, 09/08/2026, "Ciclone derruba torres de energia e deixa duas cidades sem luz", https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/08/09/torres-de-energia-eletrica-desabam-durante-passagem-de-cicl
Valor, 18/08/2026, "País precisa reforçar redes para enfrentar clima extremo, diz ONS", https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/08/18/pais-precisa-reforcar-redes-para-enfrentar-clima-extremo-diz-ons.ghtml
Valor, 11/08/2026, "Objetivo é garantir que sistema elétrico esteja preparado para desafios", https://valor.globo.com/brasil/noticia/2026/08/11/objetivo-e-garantir-que-sistema-eletrico-esteja-preparado-para-desafio
