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Alerta de risco

Risco climático físico no reporte: como calcular e reportar com número auditável

Mateus Lima
Mateus Lima

CEO

9 min de leitura
Risco climático físico no reporte: como calcular e reportar com número auditável

A CVM revogou a obrigação. O mercado não revogou a cobrança.

No fim de maio de 2026, a Resolução CVM 244 mudou a regra do jogo para o reporte climático no Brasil. E muita gente leu isso como "acabou a exigência, acabou o trabalho". Não é o caso. Vou explicar por quê, e depois vou mostrar como calcular risco físico climático com número que resiste a auditoria, não a narrativa bonita de relatório de sustentabilidade.

Se você é CFO, diretor de risco ou lidera RI numa companhia aberta, esse texto é para você tomar uma decisão informada antes que o investidor, a seguradora ou o agente de crédito tomem por você.

O que a Resolução CVM 244 mudou, de fato

A Resolução CVM 244, publicada em 29 de maio de 2026, incorporou os padrões IFRS S1 e S2 ao ordenamento brasileiro. Isso é fato. O que ela também fez foi remover a obrigatoriedade desse reporte para mais de 700 companhias listadas na B3 (Conjur, 11/jun/2026; Capital Reset, 10/jun/2026).

A partir de janeiro de 2027, vale o regime de "pratique ou explique". Você pode não reportar. Mas precisa justificar por que não reportou. Isso muda o cálculo de risco reputacional de quem simplesmente ignora o tema.

O ponto central, e a Capital Reset foi direta nisso: a decisão da CVM não é o fim do IFRS S1/S2 na prática de mercado. Investidores institucionais, fundos de pensão e gestoras internacionais seguem cobrando esse dado nas suas próprias políticas de alocação. Seguradoras seguem usando (ou tentando usar) esse dado para precificar risco. A obrigação regulatória caiu. A demanda de capital não caiu junto.

Isso separa dois grupos de empresas: as que vão tratar o clima como item de compliance que sumiu, e as que vão tratar como vantagem competitiva que ninguém mais é obrigado a construir, mas que continua valendo dinheiro para quem constrói bem.

Por que reportar mesmo sem mandato

Números de mercado ajudam a entender o tamanho do problema que fica em aberto se você não reportar nada.

O CDP registrou US$ 3 bilhões em perdas reportadas globalmente por eventos climáticos extremos em 2025. Chuvas intensas, sozinhas, responderam por US$ 1,5 bilhão desse total. Esse é o tipo de número que fundo de investimento cruza com o seu balanço antes de decidir se compra ou vende sua ação.

No Brasil, o Instituto Internacional de Sustentabilidade (IIS Rio) estimou R$ 540 bilhões em danos a infraestruturas críticas ao longo de 30 anos, o equivalente a R$ 18 bilhões por ano, 0,25% do PIB. Água, energia, portos, rodovias, irrigação: a lista de ativos expostos é a lista de ativos que companhias abertas brasileiras têm no balanço.

E o CNseg, em parceria com a EY, apurou R$ 184 bilhões em prejuízos climáticos no Brasil entre 2022 e 2024, para a COP30. Desse total, 91% sem cobertura de seguro. Isso não é estatística distante. É o motivo pelo qual a sua seguradora vai pedir dado físico antes de renovar a apólice, com ou sem exigência da CVM.

Quem reporta risco físico com número auditável sai na frente em três frentes concretas: acesso a capital mais barato, negociação de seguro com prêmio mais justo, e crédito com condição melhor porque o credor enxerga gestão de verdade, não intenção.

Passo 1: mapear o ativo

O erro mais comum em relatório de sustentabilidade é a frase genérica: "a empresa está exposta a eventos climáticos extremos". Isso não é dado. É admissão de que ninguém mediu nada.

Mapear o ativo significa nomear. Qual terminal, qual usina, qual trecho de ferrovia. Em que coordenada geográfica. Qual cota de operação, qual piso de segurança, qual ponto de acesso rodoviário ou fluvial que, se alagado, para a operação inteira mesmo que o ativo principal esteja seco.

Um porto não "sofre com chuva". Um berço específico, numa cota específica, para de operar quando a maré e o vento excedem um limiar específico. Essa é a granularidade que um investidor, um auditor ou uma seguradora consegue verificar. A frase genérica, ninguém consegue auditar porque não existe nada para conferir.

Passo 2: medir frequência e severidade

Depois de mapear o ativo, você precisa de histórico. Não intuição de operador experiente, não "aqui sempre foi assim". Reanálise climática de 10 a 20 anos, nas coordenadas exatas do ativo, para cada perigo relevante: chuva extrema, vento, onda, calor, seca, cota de rio.

Aqui a resolução do dado importa mais do que parece. Previsão pública de canal aberto trabalha com grade de aproximadamente 25 km. Num litoral ou numa bacia hidrográfica, isso pode misturar o clima do seu ativo com o clima de uma cidade a 20 km de distância, com relevo, vento e regime de chuva completamente diferentes.

A i4sea trabalha com resolução de 1 a 3 km, cruzando reanálise de mais de dez anos com 18 perigos monitorados, em mais de 100 ativos na América Latina e Europa. Isso permite responder três perguntas de auditor com número, não com adjetivo: quantas vezes esse perigo ocorreu no seu ativo específico, com que intensidade, e qual a probabilidade de repetição no curto, médio e longo prazo.

Um dado técnico de contexto que mudou o jogo em 2026: o El Niño foi confirmado, com a NOAA apontando 96% de probabilidade de persistência até fevereiro de 2027. Um estudo da i4sea publicado pela Agência Brasil em julho de 2026 projetou que o país pode chegar a 127 dias de calor extremo por ano até 2075, contra 6 dias hoje. A região Norte pode ver aumento de 2,8°C na temperatura média, com 193 dias de calor extremo por ano, e até 13 ondas de calor anuais no país inteiro. Isso não é previsão de amanhã. É o pano de fundo estatístico que qualquer reporte de risco físico de longo prazo precisa incorporar.

Passo 3: traduzir em impacto financeiro

Aqui é onde a maioria dos relatórios de sustentabilidade falha, mesmo quando acerta o passo 2. Frequência e severidade sem tradução financeira é dado de meteorologista, não de CFO.

A conta que interessa ao investidor é simples de enunciar e trabalhosa de montar: exposição total é probabilidade multiplicada por impacto. Impacto direto é parada de operação, reparo de ativo, multa contratual, demurrage. Impacto indireto é efeito sobre receita futura, aumento de prêmio de seguro, custo de capital mais alto porque o mercado precifica você como mais arriscado.

O Brasil pagou US$ 2,3 bilhões (cerca de R$ 13 bilhões) em demurrage portuária em 2024, alta de 15% sobre 2023, segundo levantamento da Bain publicado pelo Valor Econômico. Em Santos, 84% dos navios atrasaram em 2024, com média de 12 dias de atraso, segundo Datamar e CNT. O tempo médio de espera no porto saltou de 9 horas em 2019 para 20 horas em 2023, de acordo com a Centronave.

Esses números não são estatística de setor distante. São o tipo de linha que, uma vez calculada para o seu ativo específico, vira exposição financeira reportável, com fonte, com metodologia, com data de corte. Auditável.

Passo 4: escrever de forma útil

Com os três passos anteriores prontos, escrever o reporte deixa de ser exercício de redação e vira exercício de clareza. A estrutura que resiste a auditoria tem cinco elementos, sempre juntos, nunca separados: ativo afetado (nomeado), perigo (nomeado), probabilidade (numérica, com janela temporal), impacto financeiro (numérico, com metodologia de cálculo), mitigação em curso (concreta, verificável).

Não existe atalho aqui. Um parágrafo que diz "a companhia monitora riscos climáticos e adota medidas de mitigação" não sobrevive a uma auditoria séria, e cada vez menos sobrevive à leitura de um analista de crédito treinado para separar compliance de gestão real.

O que evita retrabalho

A maior economia de tempo e dinheiro no reporte climático não está na hora de escrever. Está na hora de medir. Quando o dado nasce auditável, com metodologia registrada e fonte rastreável desde a coleta, o relatório final é consequência, não trabalho extra.

É por isso que a Santos Brasil reduziu de 7 para 3 dias o tempo médio de espera em operações críticas, com R$ 105 milhões por ano em receita adicional e segurança climática de 100% nas operações monitoradas, segundo reportagem do G1 de fevereiro de 2026. É por isso que o Puerto Mejillones, no Chile, processou 426 alertas climáticos só no primeiro trimestre de 2026, com ROI de 20 para 1 e US$ 305 mil por ano em benefício direto.

Onde a maioria vê imprevisto, a gente vê variável de gestão. Esses números não vieram de relatório bonito. Vieram de medição contínua, com resolução espacial fina o suficiente para separar o clima do seu ativo do clima da cidade vizinha.

O reporte que sobra depois da obrigação

A CVM 244 tirou a obrigação. Não tirou a pergunta que investidor, seguradora e agente de crédito continuam fazendo: qual é a sua exposição real, em número, com fonte?

Quem já tem esse número naquele momento não precisa correr atrás de relatório em janeiro de 2027. Só precisa publicar o que já mede.

Se você quer saber onde seu ativo está exposto agora, com resolução de 1 a 3 km e histórico de mais de dez anos, o time da i4sea faz esse diagnóstico. Chama a gente para conversar sobre o i4climate.

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Fontes

Resolução CVM 244 (29/05/2026) e revisão do reporte IFRS S1/S2: Conjur, 11/jun/2026; Capital Reset, 10/jun/2026; EY FAQ regulatório

CDP 2025: US$ 3 bi em perdas globais reportadas por eventos climáticos extremos; US$ 1,5 bi em chuvas intensas

IIS Rio: R$ 540 bi em danos a infraestruturas críticas em 30 anos (R$ 18 bi/ano, 0,25% do PIB)

CNseg/EY, relatório para a COP30 (2025): R$ 184 bi em prejuízos climáticos no Brasil, 2022-2024; 91% das perdas sem cobertura de seguro

Bain / Valor Econômico, abr/2025: US$ 2,3 bi (≈R$ 13 bi) em demurrage no Brasil em 2024, alta de 15% vs 2023

Datamar/CNT: 84% dos navios atrasaram em Santos em 2024, média de 12 dias

Centronave: tempo médio de espera portuária, de 9h (2019) para 20h (2023)

Atlas Digital MDR: 3x mais frequência e severidade de eventos climáticos extremos na última década

Estudo i4sea, publicado pela Agência Brasil, jul/2026: projeção de até 127 dias de calor extremo/ano no Brasil até 2075 (vs 6 hoje); Norte +2,8°C, 193 dias/ano; até 13 ondas de calor/ano

NOAA, jul/2026: 96% de probabilidade de persistência do El Niño até dez/2026-fev/2027

G1, fev/2026: caso Santos Brasil, redução de 7 para 3 dias de espera, R$ 105 mi/ano em receita adicional

Master deck i4sea: caso Puerto Mejillones (Chile), 426 alertas no Q1/2026, ROI 20:1, US$ 305 mil/ano em benefício

Capacidade técnica i4sea: reanálise histórica de 10+ anos, resolução espacial de 1-3 km, monitoramento de 18 perigos, mais de 100 ativos na América Latina e Europa

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