Seguro catástrofe: o mercado que o El Niño está acelerando
91% das perdas climáticas no Brasil ficam sem qualquer cobertura de seguro. O dado é do CNseg/EY, apresentado na COP30 em 2025. Não é falha de consciência do mercado. É falha de instrumento.
O El Niño confirmado para 2026/2027 está fazendo o que nenhum relatório sozinho conseguiu: acelerar a conversa sobre seguro catástrofe no Brasil. Fica uma pergunta simples. Por que precisamos de um fenômeno climático batendo na porta para resolver um problema que já estava nos números há anos?
O que o El Niño está de fato acelerando
Em junho de 2026, o setor de seguros registrou um sinal de mudança de postura. A Gente Seguradora noticiou que, depois da confirmação do El Niño, seguradoras, entidades de classe e órgãos públicos avançaram na mobilização por seguro catástrofe e medidas de proteção climática no Brasil. O tema saiu do seminário e entrou na mesa de diretoria.
Isso conversa com o que a imprensa já registrava em janeiro do mesmo ano: a intensificação dos eventos climáticos extremos, entre alagamentos urbanos e secas prolongadas no campo, está forçando seguradoras brasileiras a repensar modelos de proteção, gestão de risco e precificação. Revisão de modelo não é rotina de compliance. É reconhecimento de que o modelo antigo não dá conta do risco novo.
O risco novo tem escala global, mas o dado merece precisão, porque aqui mora um ponto importante para quem trabalha com número rastreável. A Munich Re, uma das maiores resseguradoras do mundo, registrou US$ 112 bilhões em perdas globais por desastres naturais no primeiro semestre de 2026, dos quais cerca de US$ 44 bilhões estavam segurados. Isso é, na verdade, um semestre mais ameno que a média: abaixo da média inflacionada de 10 anos (US$ 113 bilhões em perdas totais, US$ 50 bilhões seguradas) e da média de 5 anos (US$ 136 bilhões e US$ 66 bilhões).
O ponto de atenção não é o volume do primeiro semestre. É o que a própria Munich Re está sinalizando para o segundo. Tobias Grimm, cientista-chefe de clima da resseguradora, descreveu a combinação como perigosa: o aquecimento global continua e o mundo caminha para um Super El Niño, o que deve elevar ainda mais as temperaturas, com efeitos concentrados no segundo semestre do ano. Thomas Blunck, membro do conselho da Munich Re, chamou o primeiro semestre de "um respiro bem-vindo" depois de anos de perdas elevadas, mas reforçou que a mudança climática e o crescimento da exposição seguem aumentando o risco de perdas maiores à frente.
Quando o resseguro fala em risco futuro em vez de comemorar o resultado presente, o mercado inteiro sente o sinal. É o resseguro quem carrega o risco de cauda que as seguradoras locais não conseguem segurar sozinhas.
O El Niño não criou o problema do seguro catástrofe brasileiro. Só tirou ele do armário mais rápido.
91% sem cobertura: o número que abre o debate
Vale desdobrar o dado inicial. O CNseg/EY calculou R$ 184 bilhões em prejuízos climáticos no Brasil entre 2022 e 2024, em 67 eventos significativos, uma média de R$ 60 bilhões por ano. Olhando a janela mais recente, de 2022 até junho de 2025, o total sobe para cerca de R$ 215 bilhões em 77 eventos. Desse total acumulado, 91% não tiveram nenhuma cobertura de seguro.
Um estudo distinto, do mesmo período, chega a uma leitura semelhante por outro caminho: o Brasil perde cerca de R$ 110 bilhões por ano com desastres climáticos, e apenas 10% dos prejuízos têm seguro. As metodologias não são idênticas, mas a ordem de grandeza e a direção do problema se confirmam em fontes independentes: a maior parte do prejuízo climático brasileiro simplesmente não está segurada.
O ano de 2024 ilustra o que esse número significa na prática. O evento de maio no Rio Grande do Sul causou R$ 89 bilhões em perdas diretas, afetou 2,4 milhões de pessoas, custou 182 vidas e fechou o Aeroporto Salgado Filho por meses. Mesmo sendo o ano de referência da tragédia, a cobertura de seguro para o estado ficou em 8%, cerca de R$ 7,3 bilhões pagos. Comparado aos países desenvolvidos, onde entre 20% e 55% das perdas climáticas têm cobertura, o Brasil roda a 9%.
A distribuição por ramo de seguro em 2024 mostra onde a proteção existente se concentra: patrimonial responde por 58% dos sinistros climáticos, automóvel por 19%, rural e agro por 15%, habitacional por 6% e os demais ramos somam 2%. Nas regiões Norte e Nordeste, a cobertura climática fica abaixo de 2%. Em residências, 15%. Na área plantada do agronegócio, menos de 5%.
Não é falta de produto. As seguradoras brasileiras têm apólice para praticamente todo tipo de ativo, de porto a usina, de silo a linha de transmissão. O gargalo é outro: sem dado físico confiável sobre o risco de cada ativo específico, o produto não consegue ser precificado com segurança. Produto que não pode ser precificado direito, ou não sai do papel, ou sai caro demais para o cliente, ou barato demais para a seguradora sustentar no longo prazo.
O gargalo não é o evento, é o modelo de risco
Aqui está o ponto que costuma passar despercebido nas conversas sobre seguro catástrofe. O problema não é o evento climático em si. Enchente acontece, seca acontece, onda de calor acontece. Isso sempre existiu. O problema é que boa parte da indústria de seguros ainda precifica risco climático com dado de resolução regional, algo em torno de 25 a 100 km de malha, quando o ativo que precisa ser segurado está num ponto específico do mapa: um porto, uma subestação, um trecho de ferrovia, um talhão de lavoura.
Risco climático não é uniforme dentro de uma área de 25 km. Um porto pode estar exposto a uma dinâmica de vento e maré completamente diferente da cidade vizinha, a 20 km de distância. Uma usina pode estar num microclima de chuva intensa que a média regional simplesmente dilui. Uma fazenda pode enfrentar um regime de seca que o município ao lado não sente da mesma forma. Quando o modelo de precificação enxerga a região, mas não o ativo, ele erra sistematicamente para os dois lados: subprecifica o que está em risco real e sobrepreça o que não está, ou simplesmente recusa segurar o que não consegue medir.
Frequência e severidade de eventos extremos também vêm mudando no Brasil. O Atlas Digital de Desastres no Brasil, mantido pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec/MIDR) em cooperação com a UFSC, reúne registros oficiais de desastres em todo o território nacional entre 1991 e 2025, e mostra uma trajetória clara de aumento na frequência de eventos registrados ao longo das últimas décadas. O evento está mais frequente. O modelo de precificação, historicamente, não acompanhou o mesmo ritmo de refinamento.
Duas faces do mesmo problema: subscrição e disclosure
O gargalo de dado físico granular não aparece só na precificação do seguro. Ele aparece também do outro lado do balanço, no disclosure de risco climático das empresas seguradas.
Desde maio de 2026, a Resolução CVM 244 tornou voluntário o relatório de risco climático das companhias abertas brasileiras, revertendo a obrigatoriedade que estava em vigor. O regime atual funciona no modelo "pratique ou explique", sem novo prazo definido para uma eventual volta à obrigatoriedade. A CVM Resolução 218, de 2024, segue como padrão técnico de referência, não como exigência.
Isso não elimina a pressão. Das cerca de 700 companhias abertas listadas na B3, apenas 8 formalizaram adoção voluntária do padrão até o fim de 2025. Para o setor financeiro, a régua é diferente: bancos e conglomerados seguem obrigados pela trilha do Banco Central (CMN 5.185 / BCB 435), independentemente da decisão da CVM.
O ponto de conexão com o seguro catástrofe é direto. Tanto o subscritor que precifica uma apólice quanto o CFO que assina um relatório de risco climático precisam responder à mesma pergunta: qual é a exposição real deste ativo específico, não da região onde ele está? Sem dado de resolução fina, por ativo, cruzado com cenários climáticos futuros, as duas respostas ficam genéricas. E resposta genérica não sustenta nem precificação de seguro nem disclosure defensável em auditoria.
O que muda quando o dado é do tamanho do ativo
A saída não é mais alarme, é mais resolução. Um modelo de risco físico que trabalha com o mesmo grão do ativo segurado, e não com a média de uma região inteira, muda o que a seguradora consegue fazer em três frentes.
Na subscrição, permite precificar com o clima de hoje e com cenários futuros calibrados por ativo, em vez da média histórica de uma malha ampla. Isso reduz tanto a subprecificação de ativos em risco real quanto a recusa de segurar o que simplesmente não foi medido direito.
Na gestão de carteira, permite antecipar por evento, não só por temporada. Saber que uma frente fria ou um ciclone extratropical vai atingir uma região específica da carteira dá tempo para mobilizar atendimento, comunicar segurados de alta exposição e ajustar a exposição agregada antes do evento, não depois que o sinistro já entrou na conta.
No sinistro e na provisão, permite construir uma trilha de evidência: qual variável climática foi observada, em que hora, em que local, com que intensidade. Essa trilha sustenta análise de causa, sub-rogação contra terceiros, comprovação de força maior e defesa em disputas judiciais, com método rastreável em vez de parecer técnico avulso.
O denominador comum das três frentes é o mesmo: dado físico de resolução fina, calibrado para o Brasil e a América Latina, não um dado global genérico ajustado a força. É esse o gargalo que separa um mercado de seguro catástrofe que reage ao evento de um mercado que o precifica com método antes dele acontecer.
O El Niño não é o problema. É o prazo
O mercado de seguro catástrofe brasileiro não estava esperando o El Niño para existir. Estava esperando o dado que faltava para funcionar direito. O fenômeno climático de 2026/2027 só tornou visível, com mais urgência, um problema que a i4sea já via nos números desde antes: o risco climático brasileiro é real, mensurável e cada vez mais frequente, mas segue precificado com a resolução errada.
Para seguradoras, resseguradoras e empresas com ativos expostos a risco físico climático, a pergunta que vale fazer agora não é se o próximo evento vai acontecer. É se o dado usado para medi-lo enxerga o ativo, ou só a região.
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