Risco climático físico: o dado que virou critério de capital
Mateus Lima
CEO
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Na mesma semana, duas cidades brasileiras fizeram a mesma aposta: dado de clima vende. Não vende como discurso de sustentabilidade. Vende como argumento de investimento.
Vale entender o que cada uma fez, porque o padrão que elas estão criando vai bater na porta de quem opera ativo privado antes do que parece.
Porto Alegre: dado de resiliência como vitrine para investidor
No Distrito da Inovação, o antigo Quarto Distrito, a prefeitura lançou uma plataforma que reúne em tempo real dados sobre proteção contra cheias, projetos urbanos e oportunidades de negócio. Os números da vitrine:
1.258 hectares e cerca de 18 mil economias locais na região, com 636 pontos de interesse mapeados na plataforma.
2.Obras de proteção e drenagem: das 60 previstas depois das enchentes de 2024, 48 concluídas, 8 em andamento e 4 em projeto.
3.Mais de R$ 1 bilhão em investimentos projetados para a transformação da região, entre infraestrutura sustentável, proteção contra cheias e corredores ecológicos.
O coordenador de TI da Smamus, Matheus Marchiori, resumiu a intenção em uma frase, à Exame: "Queremos trazer mais confiança para investidores e mostrar que estamos preparados para a nova realidade do clima."
Repare no verbo. Não é "informar". É "trazer confiança". Dado de resiliência virou peça de comunicação com investidor.
Balneário Camboriú: monitoramento denso como posicionamento
Na mesma semana, Balneário Camboriú passou a integrar uma rede de monitoramento climático com inteligência artificial nos 11 municípios da região da AMFRI, com 38 pontos de monitoramento e dado atualizado a cada 4 horas, no lugar da atualização diária do sistema anterior.
Cidade turística, mercado imobiliário aquecido, exposição alta a eventos costeiros. A escolha de investir em monitoramento denso não é acaso: é posicionamento. Cidade que monitora clima com granularidade fina sinaliza ao mercado que sabe gerenciar o risco que vende. E o contrato anual da cidade na rede, de R$ 83,9 mil, mostra outra coisa: o custo do dado é ordens de grandeza menor do que o risco que ele ajuda a gerenciar.
O sinal por trás dos dois casos
Cidades não fazem isso por vaidade técnica. Fazem porque perceberam algo que o mercado financeiro já sabia: resiliência climática deixou de ser pauta de secretaria de meio ambiente e virou critério de alocação de capital.
Investidor olha para infraestrutura de drenagem antes de aportar. Financiador olha para exposição a evento extremo antes de liberar crédito. Segurador olha para sinistralidade projetada antes de precificar apólice. Cidade que tem esse dado pronto, estruturado e público sai na frente na disputa por capital.
Agora troque "cidade" por "ativo". Usina, planta industrial, subestação, ferrovia, carteira de ativos segurados. A lógica é idêntica. Quem financia, subscreve ou concede esse ativo também está perguntando: qual é a exposição climática física, ativo a ativo, nos próximos anos?
A assimetria: o investidor pergunta pelo ativo, o operador responde com a média
Aqui está o problema. O investidor pergunta pelo dado do ativo específico. O operador, na maioria dos casos, ainda responde com a média do estado, ou pior, com "força maior" depois que o evento já aconteceu.
Enquanto essa assimetria persiste, o risco climático físico não desaparece. Ele só muda de lugar: entra na sinistralidade da seguradora, na provisão contábil da empresa, no custo de capital do financiamento. Alguém sempre paga a conta de um risco que não foi medido antes de acontecer.
Os números mostram o tamanho dessa conta.
Globalmente, as perdas seguradas por catástrofes naturais somaram US$ 137 bilhões em 2024, 27% acima da média de US$ 108 bilhões dos últimos dez anos. O protection gap, a diferença entre perda econômica total e perda coberta por seguro, chegou a US$ 181 bilhões: do total de US$ 318 bilhões em perdas econômicas por desastres no mundo, 57% ficaram sem cobertura nenhuma.
No Brasil, segundo o levantamento da CNseg com a EY apresentado na COP30, foram R$ 184 bilhões em prejuízos ligados a eventos climáticos entre 2022 e 2024. Desse total, 91% das perdas não tinham cobertura de seguro.
Noventa e um por cento. Isso não é uma falha pontual de mercado. É a ausência de um padrão de dado que permita medir, precificar e provisionar risco climático físico por ativo, antes de o evento acontecer.
Para a seguradora, a assimetria tem nome técnico: precificar pela média regional erra para os dois lados. Cobra caro demais do ativo bem protegido, que vai embora, e cobra barato demais do ativo exposto, que fica na carteira.
Risco climático físico não é previsão do tempo. É índice por ativo
O dado que sustenta uma decisão de capital não é a previsão de chuva da cidade. É a tradução do perigo climático em um índice calculado para o ativo específico, cruzando clima com as características do território: cobertura vegetal, solo, declividade, o que está exposto no caminho do perigo.
A diferença aparece quando o índice encontra o evento real. Três exemplos do nosso próprio trabalho, em três setores diferentes:
1.Numa concessionária de energia, o índice de queda de árvore sobre a rede cruzou vento com uso do solo e mapeou o risco a cada 3 km, em 73 municípios da concessão.
2.Numa malha de dutos, o índice de risco de deslizamento foi validado contra os eventos geotécnicos reais de 8 anos de histórico: 3 dos 4 eventos ocorreram em trechos que o índice já classificava como risco alto ou muito alto, sem que esses eventos tivessem sido usados para treinar o modelo.
3.Num corredor rodoviário crítico, a previsão antecipou em 47 horas o fechamento real da via por alagamento.
É esse tipo de dado, por ativo e validado contra evento real, que um comitê de crédito, uma mesa de subscrição ou um conselho conseguem usar. Média regional não entra em modelo de precificação. Índice por ativo entra.
O padrão de dado que fecha a lacuna
É exatamente essa lacuna que o i4climate, da i4sea, foi desenhado para fechar: quantificar exposição climática ativo a ativo, com cenários do IPCC (SSP2-4.5 e SSP3-7.0) projetados até 2075, em formato nativo para os frameworks que o mercado usa como referência: IFRS S2, CVM 218 e TCFD.
Sobre o regulatório, uma leitura estratégica em vez de alarme: desde maio de 2026, com a Resolução CVM 244, o reporte de risco climático é voluntário no Brasil. E até dezembro de 2025, apenas 8 de 700 companhias abertas haviam aderido aos padrões IFRS S1/S2. Ou seja, o espaço de diferenciação está praticamente vazio: quem estrutura esse dado agora não está correndo atrás de prazo, está se posicionando na frente da fila do capital, como Porto Alegre e Balneário Camboriú fizeram na disputa entre cidades.
Isso é possível porque a i4sea trabalha com resolução de 1 a 3 km, enquanto a previsão pública opera a cerca de 25 km, e mantém mais de 10 anos de reanálise climática proprietária, monitorando mais de 100 ativos críticos na América Latina e na Europa, com 18 perigos hidrometeorológicos cobertos.
A frase que resume o posicionamento vale repetir: precifique, planeje e provisione com o risco do seu ativo, não com a média do estado.
Próximo passo
Se você não sabe, hoje, qual é a exposição climática física do seu ativo até 2050, essa é a pergunta que o próximo investidor, financiador ou segurador vai fazer.
A i4sea oferece um diagnóstico gratuito de risco climático de 1 ativo ou região, em 7 dias, com o mesmo padrão de dado usado por operadores que já gerenciam clima como variável de negócio, não como imprevisto.
Rede de monitoramento climático com IA na região da AMFRI (38 pontos, 11 municípios, dado a cada 4 horas, contrato de R$ 83,9 mil/ano de Balneário Camboriú): Notícia Já, 21/ago/2026
Perdas seguradas de US$ 137 bilhões em 2024, média de US$ 108 bilhões, protection gap de US$ 181 bilhões (57% de US$ 318 bilhões sem cobertura) e adesão de 8 de 700 companhias abertas ao IFRS S1/S2: i4sea, página de seguros
R$ 184 bilhões de prejuízos climáticos no Brasil (2022-2024) e 91% sem cobertura: Radar CNseg/EY, apresentado na COP30, 2025
Reporte de risco climático voluntário no Brasil: Resolução CVM 244, maio/2026